Congresso ADHP: Sustentabilidade na hotelaria exige liderança e impacto nos territórios, defende Jaime Hervás
O 2.º dia do XXII Congresso da ADHP (Associação de Diretores de Hotéis de Portugal) arrancou com uma intervenção de Jaime Hervás, responsável de sustentabilidade na escola internacional de gestão hoteleira Les Roches, sobre como a sustentabilidade no turismo deixou de ser apenas um conjunto de métricas ambientais para se tornar numa questão de liderança estratégica capaz de influenciar o desenvolvimento dos territórios.

Durante a sua apresentação, o especialista destacou que o conceito de sustentabilidade evoluiu rapidamente nas últimas décadas. Embora hoje esteja presente em praticamente todas as empresas e instituições, a sua origem remonta apenas aos anos 70, quando o crescimento acelerado da população mundial começou a colocar pressão sobre os recursos naturais: "passámos de cerca de 1,5 mil milhões de pessoas para mais de oito mil milhões em pouco mais de um século”, sublinhou. Esse crescimento trouxe novos desafios globais, como o aumento da procura por recursos, as emissões de gases com efeito de estufa, as alterações climáticas e conflitos associados ao acesso a território e matérias-primas.
Segundo Jaime Hervás, a primeira fase da sustentabilidade esteve centrada sobretudo nas questões ambientais. No setor da hotelaria, isso traduziu-se em medidas como a substituição de iluminação por tecnologia LED, a instalação de painéis solares, a redução do uso de plástico e a implementação de estratégias de poupança de água.
Com o tempo, estas práticas evoluíram para modelos de gestão mais estruturados, integrados no conceito de ESG. Este modelo trouxe métricas e indicadores que permitem medir o impacto das empresas em diferentes dimensões: "hoje conseguimos medir quase tudo”, afirmou. Entre os indicadores utilizados pelas empresas do setor estão a intensidade de carbono, o consumo energético por noite de alojamento, a produção de resíduos ou as taxas de reciclagem.
A dimensão social também passou a ser considerada, incluindo métricas relacionadas com segurança no trabalho, criação de emprego, formação profissional, igualdade salarial e relação com as comunidades locais.
Para o especialista, o mais impressionante é a rapidez com que esta arquitetura de gestão foi construída. Em apenas meio século, a sustentabilidade passou de um conceito praticamente inexistente para um dos sistemas de gestão mais complexos do mundo empresarial.
Apesar disso, Hervás lançou uma pergunta: “vivemos realmente de forma diferente?” Segundo o especialista, a existência de relatórios, indicadores e departamentos dedicados à sustentabilidade não garante, por si só, mudanças reais: “Criámos muitas ferramentas, mas ferramentas não lideram”, frisou.
Na perspetiva do docente da Les Roches, a sustentabilidade deve ser encarada sobretudo como uma questão de liderança. Mais do que cumprir listas de requisitos ou relatórios, trata-se de tomar decisões estratégicas que influenciam o crescimento económico, o emprego e a relação das empresas com os territórios onde operam.
“Os hotéis não são apenas edifícios. São células económicas e sociais”, explicou. Para além da atividade turística, influenciam mobilidade, emprego, consumo de recursos e a dinâmica económica local. Por isso, defende, o verdadeiro desafio não está apenas nos resultados imediatos da operação, mas na criação de valor a longo prazo: "a questão é saber se o hotel continuará aberto daqui a 20 anos”.
Aceitação da comunidade torna-se fator decisivo
Outro dos pontos centrais da intervenção foi o papel do turismo na transformação das cidades e destinos. Hervás alertou para o fenómeno de concentração turística em determinados territórios, que pode gerar pressões sociais e urbanísticas. Em várias regiões da Europa, incluindo Espanha e Portugal, o crescimento do turismo tem sido acompanhado por aumentos nos preços da habitação e pela deslocação de residentes para zonas periféricas. Ao mesmo tempo, existe o risco de perda de identidade cultural nos destinos turísticos, precisamente quando os visitantes procuram autenticidade e contacto com culturas locais.
Neste contexto, o especialista defende que o sucesso do turismo depende cada vez mais da aceitação das comunidades locais. Mais do que cumprir regulamentações, as empresas precisam de garantir legitimidade social: "hoje a pergunta não é apenas se medimos a sustentabilidade. A pergunta é quem beneficia realmente dela”.
As decisões dos gestores podem determinar se o valor económico gerado pelo turismo circula na economia local ou se é simplesmente extraído do destino.
Formação de líderes para o futuro do setor
Para Jaime Hervás, a resposta a estes desafios passa também pela formação de novos líderes na indústria da hospitalidade. Instituições como a Les Roches procuram preparar profissionais capazes de integrar sustentabilidade, estratégia e desenvolvimento territorial nas decisões empresariais. “Se a sustentabilidade for uma decisão consciente, torna-se algo estratégico, cultural e partilhado”, concluiu.
O Congresso da ADHP decorreu nos dias 5 e 6 de março, em Elvas.
Por Diana Fonseca, em Elvas