Opinião: "New Localogy, ou como as bebidas também têm uma identidade marcada"
Por Hugo Silva, Cofundador da Cocktail Team

Durante décadas, a mixologia viveu sob o signo da globalização. Os mesmos cocktails, os mesmos ingredientes, as mesmas marcas, independentemente de estarmos em Lisboa, Estocolmo ou Tóquio. Não sejamos amargos, a criatividade existia, claro, mas sempre dentro de um vocabulário global comum. Hoje, esse paradigma está a mudar. E a mudança tem nome, New Localogy.
Este é um movimento que combina sustentabilidade, identidade territorial e uma nova consciência do consumidor. Esta perceção está a transformar a forma como bares, produtores e bartenders pensam o que servem. O cocktail deixa de ser um objeto universal e passa a ser um produto cultural, profundamente ligado ao lugar onde nasce. Quantas vezes, quando vai a um supermercado, não procura verificar a origem da fruta, dos legumes ou da manteiga? Ou quando vai para fora, cá dentro, não gosta de provar os sabores da região que visita? Aquele cabrito em Trás-os-Montes, as migas no Alentejo, ou rojões no Minho…
Pois bem, é tempo de pensar o mesmo dos cocktails, dos produtos que fazem com que certas bebidas tenham aquele sabor tão característico, que remete para determinadas regiões e tradições.
A origem como protagonista
Esta é uma tendência relativamente recente. Até há cerca de uma década, a origem dos ingredientes não passava de um detalhe técnico. Mas, agora é o centro da narrativa, e a New Localogy coloca-a no copo. Isto, pois um crescente número de apreciadores das melhores bebidas gosta sempre de confirmar que os botânicos locais são colhidos em pequenas quintas e jardins urbanos, com base em imemoriais técnicas de cultivo; quem nunca sentiu o aroma do alecrim num bom gin alentejano, ou o inebriante sabor do hidromel, ou mesmo o travo intenso do medronho?
Sem esquecer o aumento de pequenas quintas que produzem ervas aromáticas, flores comestíveis e raízes raras, bem como ingredientes sazonais, que mudam de acordo com o clima e com o território, que se encontram um pouco por todo o país. Como consequência, aumenta a notoriedade daquelas destilarias artesanais que refletem as tradições das regionais que representam. Com isso, surge uma nova estética líquida, constituída por cocktails que não poderiam existir noutro lugar, por dependerem da geografia, da estação e da comunidade que os produz.
O que o consumidor procura agora
Se olharmos para consumidor de 2026, de imediato percebemos que é mais informado, mais exigente e mais curioso. E faz o seu trabalho de casa, pois tantas vezes sabe bem de onde vem cada ingrediente, quem o produziu, ou como foi cultivado. Não é por acaso que as melhores livrarias têm as suas secções direcionadas para a Comida e Bebida cada vez mais abastecidas, em quantidade e qualidade. E, para os ainda mais atentos, importa-lhes aferir qual o real impacto ambiental da bebida, bem como a história que está por detrás daquele sabor.
Na verdade, a lógica é semelhante à do vinho natural ou do café de origem única; o terroir volta a ser um valor, o que se traduz no copo por bebidas com carácter, textura e, acima de tudo, autenticidade. Ou, nas palavras de muitos, diversidade.
É incrível que Portugal, mesmo com a sua pequena dimensão, tenha tanto para oferecer. Os bares ou restaurantes de referência no que toca a servir cocktails de excelência não dispensam o poejo da Arrábida, citrinos do Algarve, mel de Trás‑os‑Montes, nem um destilado artesanal do Alentejo. Cada bebida torna‑se num mapa sensorial do território.
E até a figura do bartender sofreu uma mutação, de criador a curador de receitas e produtores locais. Aos melhores profissionais do setor exige-se conhecimentos, que vão da noção da sazonalidade dos produtos, até ao conhecimento da história das bebidas mais icónicas. Na verdade, o cocktail é agora uma plataforma de divulgação cultural, gastronómica e ambiental.
Que mais não é a New Localogy do que a devolução da alma ao copo, a assunção da identidade e da relação com quem produz. À primeira vista, vivemos uma era onde tudo parece igual. Mas, se olharmos com atenção perceberemos que a singularidade está à vista de todos, à distância de uma bebida, esse conceito que volta a ganhar o seu espaço na cultura de um povo.